Carlos Malta e Pife Muderno

Foto por Daniel Lôbo

Carlos Malta e Pife Muderno é uma banda de música popular instrumental brasileira, fundada em 1994, no Rio de Janeiro, pelo multinstrumentista Carlos Malta, com Andrea Ernest Dias, Marcos Suzano, Durval Pereira, Bernardo Aguiar, e Oscar Bolão, que partiu desse plano em fevereiro de 2022.

Logo após sua saída do grupo de Hermeto Pascoal, onde permaneceu por 12 anos, Malta quis realizar seu sonho de fundar uma banda de pífanos, numa formação minimalista e ritmicamente genial. Desenvolveu uma nova leitura para a performance das tradicionais bandas de pífano do nordeste, que hoje se multiplicam pelo Brasil, criando um som único.

Com exuberante criatividade, se uniu a músicos excepcionais, trouxe os elementos da tradição para conviverem com linguagens contemporâneas, do tribal ao urbano, e criou este grupo de uma imensa potência e brasilidade sonora, aclamado pelo público e pela crítica especializada dos quatro cantos do mundo por onde já passou. É popular e erudito, é universal, afro, indígena, baião, xaxado, frevo, ijexá, samba, reggae, jazz, música de câmara, pop, soul…

As possibilidades musicais do animadíssimo sexteto são infinitas, graças ao imenso talento dos artistas envolvidos há quase três décadas neste projeto, se mantendo ativo e atuante na música instrumental brasileira.

Com 3 álbuns lançados e agora com mais 4 álbuns a serem lançados em 2022, da obra Em Gil, o Pife Muderno já se apresentou nos mais importantes palcos e Festivais do Brasil e do mundo, como o MIMO, Montreal Jazz Festival, Forbidden City Concert Hall, em Pequim, e o lendário palco do Carnegie Hall em Nova Iorque, à convite do próprio Gilberto Gil, que assinava a curadoria do Festival Voices of America, em 2012.

PIFE MUDERNO: O LABORATÓRIO DE CARLOS MALTA – Por Guilherme Espir

Há um quarto de século – completados em 2020 – que Carlos Malta explora os ecos do pífano num de seus projetos mais longevos e ambiciosos: o Pife Muderno. Grupo formado com fortes raízes na cultura do pífano nordestino, o grupo se mantém ativo e atuante como um dos maiores projetos da nossa música popular instrumental.

O quinteto formado por Carlos Malta (flauta/saxofone), Andrea Ernest Diass (flauta), Oscar Bolão (bateria/percussão), Marcos Suzano (pandeiro), Durval Pereira (zabumba) e Bernardo Aguiar (pandeiro) fez um show que impressionou não só pela configuração e pela dinâmica, mas também pelo rico blend que mescla o Jazz, ritmos tradicionais do cancioneiro popular e elementos da música contemporânea.

Com um repertório ousado que conseguiu dialogar com referências que caminham desde Gilberto Gil até Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, o sexteto mostrou um fino trato para trabalhar o balanço do groove sob uma ótica que enaltece os elementos regionais, sem passar nem perto do revisionismo.

Entre temas autorais e versões, a interação do grupo é talvez o principal pilar do som. Em dado momento, Durval e Bolão largaram seus respectivos instrumentos e fizeram um quarteto de pandeiros como se fossem uma sessão rítmica para a dupla de flautas de Carlos e Andrea.

O baterista Oscar bolão tirou um som absurdo de um kit minúsculo. Quando requisitado, ainda mostrou rara habilidade no triângulo e ainda gastou o couro do pandeiro com grande destreza. Durval Pereira se mostrou peça chave no contexto do som do grupo. É notável sua sensibilidade na zabumba, entretanto, sua percepção musical é que chama atenção, especialmente devido ao turbilhão de informações que é a cozinha do Pife Muderno.

A dupla Marcos Suzano e Bernardo Aguiar fizeram um trabalho muito interessante. Ao melhor estilo guitarras gêmeas, a dupla oferecia um contraponto aos grooves de batera de Oscar, respeitando o espaço da Zabumba, mas em plena sintonia com a dupla Carlos e Andrea.

Foi um show irretocável e que entre medleys surpreendentes deixou a plateia do SESC Consolação completamente perplexa em mais um dia de Instrumental SESC Brasil. Um dos grupos mais interessantes e entrosados que já assisti ao vivo, o Pife Muderno finalizou o set com “Pife de Prata”, nova composição do grupo em homenagem aos 25 anos de corre ininterrupto.

Ao final do espetáculo confesso que fiquei consternado, mesmo já tendo assistido o Carlos Malta em 3 oportunidades – uma delas ao lado do PRD Mais e outra com o projeto Duofel – mas dessa vez o negócio atingiu um novo patamar. Com um entrosamento quase telepático, Carlos toca com uma facilidade e uma liberdade exuberante.

Do alto de seus quase 60 anos o carioca mostra um ímpeto criativo fervoroso e que ao lado de um quinteto desse nível parece criar sem fazer nenhum esforço. O som é orgânico, brasileiro legítimo e enquanto o sexteto se divertia sob o palco, a plateia recebeu uma aula magna sobre referências históricas que são o elo entre o Jazz, a música indígena e o repertório da música popular brasileira.

Quando a última nota de “Pife de Prata” se dissipou, a única coisa que consegui pensar foi que se o grupo fez 25 anos e atingiu suas bodas de prata, meus ouvidos estão banhado a ouro depois de mais de 90 minutos de um som magistral.

Definir essa cozinha é difícil, porém, até mais complexo do que isso é prever o que o grupo fará sob o palco. Eles estão na ativa desde 1994 e enquanto Carlos seguir esculpindo o vento, nós aprendemos a reverenciar um instrumentista que é uma figura essencial para se compreender os rumos do groove nacional.

Foi uma honra maestro.

Por Guilherme Espir

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